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Bayern: as duas caras, os teatrinhos e a esquizofrenia

Fátima Lacerda diretamente de Berlim exclusivo para o EI

A conquista do Campeonato Alemão e, uma semana depois, da Copa da Alemanha, fecha a temporada do time bávaro com o chamado “Duplo”. Só faltou a conquista da Orelhuda para que a temporada fosse perfeita. Aquela derrota para o Liverpool ainda arde nas veias bávaras e pode causar muitos desdobramentos.

O Bayern tem uma clara linha de objetivo: chegar até, pelo menos, a semifinal da Liga dos Campeões. Quando isso não acontece, fala-se de crise, “problemas de cabine”, quando o treinador não consegue o respaldo da equipe, quesito que o técnico do Liverpool, o alemão e ex-treinador do Borussia Dortmund, Jürgen Klopp, sabe angariar como ninguém. O motivador máximo dos jogadores e que o fazem sair da cabine com plena convicção em dar o sangue para time, Klopp, o autodenominado “The Normal One”, está bem perto de se eternizar em Anfield.

A tática usada por Kovac no jogo de volta contra o Liverpool será sempre uma mancha no seu breve currículo de treinador desde que iniciou seu trabalho na Säbener Str. A euforia pela conquista da Pokal não esconde que a última temporada do Bayern foi uma das piores da história do clube. Para os bávaros, o muito é sempre bem pouco e aquém de estar “nas cabeças” do futebol europeu, todo o resto é motivo para se proclamar uma “crise”.

Cronologia

Na temporada de ida, quando o maior adversário Borussia Dortmund exibia nove pontos de diferença para o time recordista de vitórias, a imprensa alemã, sempre naquela retórica do copo meio vazio e que o tsunami vai chegar a qualquer momento, questionava tudo: o técnico, os tipos de tática e criticava a ausência de compra de reforços no último verão.

Os veteranos Ribéry e Robben tiveram seus cargos renovados por um ano, protelando a repaginada do clube. Mulheres de jogadores, como a do também jogador brasileiro Rafinha, soltaram suas frustrações pelas redes sociais. Foi uma verdadeira caça às bruxas e um clima de ‘salve-se quem puder’.

O ápice da penúria bávara foi a coletiva de imprensa, na qual a diretoria ameaçou os jornalistas e jogou bem pesado quando os confrontou com o artigo número 1 um da constituição alemã: “A dignidade de todo o ser humano é intocável“. Na coletiva, o Bayern deu o maior atestado de pobreza de um clube que é o mais rico do país, além de descreditar toda a equipe do departamento de comunicação, que não conseguiu evitar a palhaçada. Depois viria a derrota para o Liverpool na Champions, a vitória sofrida (5 x 4) na partida pela Copa da Alemanha contra o FC Heidenheim e a uma Hashtag #NikoOut, que foi só uma consequência natural da dinâmica em um todo do time bávaro.

Segundo Niko Kovac, em declaração feita depois do jogo da Final de 25 de maio no Estádio Olímpico, em Berlim, a “virada”, o “reset” ficou visível em novembro de 2018, na partida contra o Benfica pela Champions. Ele se mostrou orgulhoso e os “problemas de cabine” e a notícia da formação de diferentes grupos dentro do time se dissolveram na dinâmica da euforia depois da vitória. 

Apesar de ter ficado na cola do aurinero, perdendo o controle, o presidente Hoeness e o CEO, Rummennige – apelidado Kalle e chamado em grupos internos de Killer Kalle –não afrouxaram a pressão. Na última coletiva da temporada, Niko Kovac exibiu o peso de treinar uma equipe obcecada pelo sucesso e que é mais do que oportunista no uso do artigo número 1 da Constituição na onda de “Faça o que digo, mas não faça o que eu faço“.

Um dia antes da final do campeonato, circulou na imprensa que, independentemente do Bayern conquistar a Dobradinha (Bundesliga + Pokal), o futuro de Niko Kovac já estaria sacramentado e não seria no FC Bayern. É instigante, para dizer ao mínimo, com exceção da aparição na coletiva do dia 17.

Niko Kovac, um cara obcecado pelo sucesso, sempre concentrado e focado, conseguiu manter a postura de um ‘gentleman’. A sua presença na coletiva de imprensa no dia 25, depois da vitória da Pokal, fala por si só. Qualquer outro treinador, com nervos que não fossem de metal ou fosse diário praticante de técnicas de budismo, teria tirado as calças pela cabeça, tomado banho de cerveja da marca Paulaner, um dos patrocinadores do clube. Mas berlinense, estigmatizado pela imprensa como “treinador jovem”, no sentido de inexperiente, é astuto demais e conhece demais o DNA bávaro. Em tom solícito com a imprensa, perguntado qual é a diferença do Kovac de exatamente um ano antes, quando venceu com o Eintracht Frankfurt contra o FC Bayern, ele se permite alguns segundos, reflete. E esboçando um sorriso de esquina dos lábios, revela: “Sou uma pessoa mais rica em experiência, mas continuo o mesmo” e acrescentou “me alegro de voltar para casa (Berlim) e poder comemorar com conhecidos e amigos“.

Esquecimento oportuno

No banquete de comemoração pela conquista da Pokal, nas dependências da Telekom alemã, em discurso, o CEO do clube e campeão da seleção de 1974, Rummenigge, “esqueceu” de agradecer nominalmente ao treinador por ter, literalmente, salvado a temporada. Agradeceu a todos. Até aos médicos e terapeutas, e ignorou Kovac.

Nada aquém da conquista dobradinha serve para o recordista de títulos. Ainda assim: Niko Kovac revidou com sorriso, levou na esportiva e não saiu da sua postura de Gentleman. É por essas e outras atitudes que o FC Bayern é o clube mais desprezado do país. Nem mesmo o discurso de tom aparentemente orgulhoso de Kalle engana, mas é preciso manter as aparências de um clube recordista de títulos. É preciso afagar o ego dos patrocinadores e alinhavar uma boa posição quando chegar a hora de negociar novas condições.

Eu me alegro pelas duas próximas semanas de férias“, declarou o treinador. Mas quem conhece o berlinense de raízes croatas sabe que não haverá descanso. Ele sabe que o segundo ano no cargo de treinador-chefe do Bayern trará um desafio ainda maior. Com a já sacramentada e divulgada a saída de Franck Ribéry, Arjen Robben e Rafinha, que já teria assinado com o Flamengo, é certa a debandada de Jerôme Boateng. Depois de ser colocado por Niko Kovac para escanteio, tendo que assistir os jogos do banco de reserva e tendo perdido seu lugar para Süle, o berlinense foi ficando cada vez mais deslocado no clube. No dia da conquista do Campeonato Alemão (18/05), Boateng foi fotografado deslocado na beirada do campo, comemorando somente com as duas filhas. Na festa de comemoração, em Munique, ele nem apareceu. No sábado, 25, depois de levantar a Pokal no ar do céu do Estádio Olímpico, o time foi até a arquibancada junto com o treinador para agradecer o apoio durante uma temporada tão difícil. Enquanto isso, Boateng foi visto sozinho e amuado no vestiário.

Na festa, na “Casa Telekom”, Boateng chegou no ônibus que levou os jogadores à festa. Mesmo tendo contrato até 2020, é totalmente infactível a permanência de Boateng no clube. A massa falida, resultante de muitas jogadas no ventilador, incluindo sua personalidade extrovertida e adepto de baladas, é imensa! Com os torcedores que conversei, na concentração em Berlim antes da Final da Pokal, a esmagadora maioria se declarou pela saída de Boateng, pela permanência de Hummels e também do treinador: “Ele merece uma nova chance”, declarou o torcedor Torsten (esquerda da foto) que viajou para Berlim especialmente para a Final.

A conquista da dobradinha é uma somente uma cortina de fumaça do que realmente acontece dentro das paredes na sede na Säbener Str. Os próximos capítulos não demoram.